
O processo de reunificação no seio da FNLA parece não ser para breve, mesmo após o acórdão do Tribunal Constitucional (TC) de 14 de Maio de 2009 que propunha uma solução interna para o conflito que opõe Lucas Ngonda a Ngola Kabangu.
Seis meses depois da decisão do TC, as coisas continuam na mesma e nenhuma luz se vislumbra no fundo túnel, com a ala de Ngonda a acusar a de Kabangu de furtar-se aos compromissos para reunificar o partido, com a realização de um outro conclave que serviria para escolher o novo líder, que iria dirigir os destinos desta organização política.
Cansado de sucessivos apelos para a aproximação de ambas partes que correm em posições diametralmente opostas, segundo apurou O PAÍS, militantes fiéis a Ngonda dirigiramse no passado dia 26 de Novembro às instalações de Ngola Kabangu, onde pretendia entregar uma carta, cujo conteúdo se presume estivesse relacionado com a vida interna do partido.
Não tendo sido recebidos por Kabangu, que se encontrava a participar nos trabalhos da Assembleia Paritária entre África, Caraíbas, Pacífico e a União Europeia (ACPEU) que decorre em Luanda, e que chegou às pressas à sede do partido na Ingombota, após uma comunicação do seus “staff”, os seguidores de Lucas Ngonda foram acusados de pretenderem assaltar as instalações, mas os intentos foram gorados graças a intervenção policial.
Esta afirmação foi feita por Ngola Kabangu em entrevista a O PAÍS, adiantando que o grupo composto por 75 pessoas liderado por Laiz Eduardo, Luís Ndulo, Miguel Pinto e Maria Henriqueta, a mando, supostamente de Lucas Ngonda e Carlinhos Zassala, tinha a intenção de apropriar-se das instalações e não de entregar a carta, como alegaram.
Para sustentar a sua tese, Ngola Kabangu que disse ser o presidente legítimo da FNLA, eleito democraticamente num congresso no qual participou um dos seus opositores, Zassala, mostrou-se apreensivo com o número de pessoas que tencionavam entregar a aludida correspondência vinda de Ngonda.
“ Não é possível que uma delegação de 75 pessoas fosse fazer a entrega de uma simples carta, cujo conteúdo se desconhece”, sublinhou, ironizando que nem já Barack Obama o mais poderoso do Mundo teria este número tão elevado. Para Kabangu, a atitude não passa de uma “ tentativa de assalto” à sede do partido, que só não foi consumado o facto graças a intervenção policial da Divisão da Ingombota para repor a legalidade.
Kabangu, que é o chefe da bancada parlamentar da FNLA à Assembleia Nacional com três lugares, considerou o comportamento dos prosélitos de Ngonda de “ inadmissível, de falta de respeito e atentatório a todos títulos contra um partido legal”.
Ngonda é ilegítimo
Visivelmente agastado com o assunto, Ngola Kabangu afirmou a O PAÍS que não reconhece nenhuma autoridade a Lucas Ngonda, ao mesmo tempo que considera desnecessário e ilegal enviarem-lhe missivas ou recados para uma eventual reunificação. “Eu é que sou o presidente do partido eleito democraticamente, e não violei os estatutos”.
Ngola Kabangu revelou que Lucas Ngonda rebelou-se contra os estatutos do partido, quando realizou um congresso em 2006, no Futungo II, no qual foi eleito, e que depois foi invalidado pelo Tribunal Supremo nas vestes de Tribunal Constitucional. “ Se o senhor Lucas Ngonda age com legitimidade porque é que realizou o congresso em 2006 sem respeitar as decisões saídas do congresso da reconciliação, e quem lhe deu esta legitimidade?”, interrogou-se.
Assegurou que “enquanto cidadão, militante, presidente do partido e deputado à Assembleia Nacional, nunca atropelei os estatutos, e sempre demonstrei a minha convicção fiel aos ideais do nosso glorioso partido”, acrescentando que “ nem tão pouco quer entrar em rebelião contra o Tribunal Constitucional, ou uma outra instituição do Estado”.
Kabangu reagia assim ao acórdão do Tribunal Constitucional que considerou improcedente o recurso que apresentara a este órgão jurisdicional depois que viu anulado o conclave que o elevou ao mais alto cadeirão do partido. E sentencia mesmo: “ Estou totalmente revoltado, indignado e estou a protestar energicamente contra uma decisão injusta do Tribunal Constitucional”, revelou.
Reforçou que “ o Tribunal passou por cima e ao lado do diferendo que opõe o militante Carlinhos Zassala que concorreu e perdeu no congresso, por um lado, por outro, está a direcção legitimada do partido aquele que o próprio Tribunal reconheceu e que participou nas eleições de legislativas de 2009”.
Não obstante este clima de tensão entre as partes envolto em polémica, a fonte de O PAÍS sublinhou que os seus adeptos continuam calmos e serenos e não responderam e nem tão pouco responderão às provocações que ele considera de militantes instruídos alegadamente por Ngonda e Zassala.
A terminar, Kabangu reiterou que não vai render-se a Ngonda, alegando ser o presidente do partido. “Daqui não saio”, tal como disse à estação radiofónica Luanda Antena Comercial (LAC).
Sanções à vista
Na senda de cruzar depoimentos de militantes acusados por Kabangu de pretender criar pânico nas dependências do partido, na rua Samuel Bernardo, na Ingombota, o portavoz de Ngonda, Laiz Eduardo, disse não corresponder à verdade os factos relatados pelo deputado Ngola Kabangu.
Laiz Eduardo, que é citado pela fonte deste jornal como o responsável que comandou o grupo, explicou que não foram 75 pessoas, mas apenas 12 e o objectivo era de entregar uma carta enviada por Ngonda a Kabangu, que este se recusou a receber no dia 23 de que era portador um dos estafetas do gabinete de Ngonda.
“Foram 12 pessoas e não 75. Estive neste grupo. O objectivo era o de convencermos o irmão Kabangu que aceitasse receber a carta que havia recusado dois dias antes.
Esta ideia partiu do senhor primeiro vice-presidente, Lucas Ngonda que sugeriu que uma delegação do partido fosse ao encontro dele para lhe explicar o conteúdo da missiva”, disse.
Laiz acrescentou que Kabangu não aceitou receber a aludida delegação, mas indicou o seu porta-voz Ndonda Nzinga com quem dialogou, assinou e protocolou a missiva, e não houve qualquer altercação entre os “irmãos” desavindos, garantiu a este jornal.
Para sustentar as suas afirmações, momentos depois apareceu um dispositivo policial, no local, que pressupõe que tivesse sido chamado pelo anfitrião para prevenir eventuais tumultos, mas felizmente nada ocorreu “ não fomos para fazer distúrbios, aliás, não é a nossa sina”, defendeu.
Acrescentou que “ por se tratar de uma presença pacífica, entregamos uma cópia da carta endereçada ao irmão Kabangu ao senhor superintendente-chefe, Vigário, da IV Divisão, que chefiava a Polícia, e este agradeceu o nosso gesto e dele recebemos garantias de segurança, no local”.
Em contacto com O PAÍS, o também secretário para a informação da FNLA revelou que, entre os cinco pontos que contém a carta, destaca-se um dos que convida que ambos passassem a funcionar na sede do partido, na avenida Hojy ya Henda, antiga avenida Brail, ao lado de Ngonda, conforme orienta uma das cláusulas saídas do conclave de 2004.
Caso Kabangu continue a actuar à margem do partido, segundo Laiz Eduardo, poderá ser sancionado com duras medidas disciplinares, como prevê os estatutos. O assunto de Kabangu deverá ser analisado na reunião do Comité Central que deverá reunir-se no dia 16 deste mês.