
Angola importa menos farinha do que devia
Fabricado com farinha de trigo importada, o preço do pão poderia descer e a sua qualidade aumentar se Angola desenvolvesse a indústria de transformação dos cereais. Enquanto esse dia não chega, vamos comendo um pão amassado nas condições possíveis e com um controlo de qualidade razoavelmente limitado. O Jornal de Angola foi ver como se faz o pão-nosso de cada dia.
Na área fabril da padaria Jambita, um grupo de seis padeiros, todos jovens, entre os 25 e os 35 anos, está empenhado na produção do pão. Enquanto uns estão com a mão na massa a separá-la em pequenas quantidades, outros verificam os 360 cassetes, de 240 gramas cada, que há cerca de 15 minutos foram colocados de uma só vez no grande forno industrial. Os pães estão cozidos e eles retiram-nos. Na mesa, onde separam e dão forma à massa, já está preparada outra fornada. Este processo repete-se ininterruptamente, porque a padaria, localizada no bairro Rangel, trabalha 24 sobre 24 horas e vende a grosso e a retalho.
Os funcionários, num total de 18, trabalham por turnos e produzem, diariamente, cinco a nove mil pães, dependendo da procura. De domingo para segunda-feira, a produção é reduzida à quantidade mínima, porque a maioria dos clientes são vendedoras de pão no mercado Roque Santeiro, que encerra nesse dia da semana para limpeza do local.
Como elas adquirem o pão para revenda, pagam 16 kwanzas por cada um, mas quem o compra para consumo doméstico deixa 20 kwanzas por unidade. Por cada pão vendido, a padaria ganha uma média de três kwanzas, segundo o gerente, Ferreira Manuel. “É um negócio mais ou menos rentável. Dá para pagar os salários dos trabalhadores”, disse.
Depois de cerca de um ano em funcionamento, Ferreira Manuel informa que a padaria vai ter novas áreas. A gerência pretende fazer uma cozinha na parte de cima, onde, actualmente, ficam os reservatórios de água e o gerador, e criar uma área de atendimento dos clientes revendedores, que são na maioria as senhoras que vendem no Roque Santeiro. “Queremos, sobretudo, acabar com a confusão com os vizinhos, porque elas, enquanto esperam por ser atendidas, ficam com as suas bacias ali no beco e impedem a passagem”. As instalações da padaria foram, em tempos, a casa de morada do proprietário, que tem mais duas padarias no Cazenga.
INADEC avalia a qualidade
Avaliar a qualidade do pão que é produzido não é fácil. A chefe de Secção de Estudos de Mercado do Instituto Nacional de Defesa do Consumidor (INADEC), Anta Webba, explica que o facto da farinha de trigo ser importada reduz, por si só, a qualidade do pão, tendo em conta o período e as condições de transporte no navio, assim como as dos armazéns onde, mais tarde, os sacos de farinha de trigo são acondicionados. “Temos encontrado gorgulho voador, uns bichos que aparecem em farináceos”, disse. Além disso, segundo explicou, é frequente encontrarem-se padeiros com a indumentária incompleta ou sem ela, com brincos, fios, cabelo e unhas compridas, a fazerem o corte da massa com o braço e a transpirarem muito, dando a possibilidade de o suor cair na massa.
Anta Webba referiu ainda a falta de pisos adequados, de água corrente e de locais apropriados para os funcionários fazerem as refeições e trocarem de roupa, como sendo aspectos que também afectam a qualidade do pão.
“Gostaríamos de estar permanente nesses locais mas, infelizmente, há escassez de recursos humanos. As equipas, em cada município, são constituídas por apenas três pessoas que não só fiscalizam as padarias, como também os restaurantes, salões de cabeleireiro, clínicas, farmácias, creches e outras instituições”.
Estes técnicos do INADEC não avaliam o peso do pão. “Se o pesarmos, muitas pessoas vão deixar de comer pão, porque se não estiver dentro da norma, não poderá ser comercializado”, justificou, dando a conhecer que não existe uma norma que regule o peso do pão, razão pela qual não é uniforme.
Quanto a outras irregularidades, Anta Webba disse que em primeira instância apenas aconselham a gerência. Fazem-no mais duas vezes e, depois disso, têm uma atitude coerciva, que consiste no encerramento da padaria. “Mas tem havido melhorias”, garantiu.
O INADEC, segundo Anta Webba, procede ao encerramento principalmente daquelas padarias que não têm condições de higiene e de acondicionamento da matéria-prima e que não cumprem com as boas práticas para o seu manuseamento.
Os clientes, por não terem acesso à área fabril, dificilmente se dão conta destes aspectos. Por isso, ao INADC chegam principalmente queixas sobre a falta de depósitos de pão. O gerente da padaria Jambita recebe reclamações devido à quantidade, elevada ou não, de sal e de fermento. “Essas falhas acontecem porque os padeiros trabalham durante a noite e, às vezes, têm sono. Mas temos estado a corrigi-las”. Ferreira Manuel disse que também obrigam os padeiros a usar a indumentária, “mas eles arranjam sempre uma desculpa para não a vestirem. Justificam que está suja, que se esqueceram dela e até que foi roubada. É difícil fazer cumprir esta norma”, admitiu. O gerente contou ainda que os padeiros não têm formação na área. Uns aprenderam ali e outros adquiriram conhecimentos nos anteriores postos de trabalho.
O peso do pão
O preço do pão, além de ser definido em função do da farinha de trigo, depende também do peso. O coordenador da Unidade Técnica de Coordenação da Indústria de Cereais e de Panificação, Jacinto Ucuahamba, disse que a carcaça e o cassete, de acordo com uma norma do tempo colonial, devem pesar 250 gramas e o pão pequeno entre 60 e 70 gramas.
Segundo o técnico José Manuel, desta Unidade, as equipas de fiscalização avaliam o peso do pão, mas não têm sido muito rigorosas neste aspecto, por causa da economia de mercado em que o país vive.
“Mesmo assim, o pão de 250 gramas não passa dos 25 kwanzas. Quando há escassez de farinha, o preço sobe até 30 kwanzas. O pão pequeno fica entre 8 e 10 kwanzas. Geralmente, não passam destes preços, porque se subir mais os clientes fogem”, referiu.
José Manuel disse que, actualmente, a grande preocupação do Estado é regular o preço da matéria-prima, principalmente da farinha de trigo e do pão e colocar em funcionamento as indústrias nacionais de produção de trigo para acabar com a importação.
“O próprio circuito comercial do pão também não está regulado. Portanto, há um conjunto de situações que devem ser corrigidas. Mas antes é preciso tomar algumas medidas, para depois, então, regular essas situações que têm a ver com o preço e o peso”, considerou.
Norma para regularização do mercado de panificação
Para Jacinto Ucuahamba, a criação de uma norma para a confecção do pão é uma das medidas que deve ser tomada para a regularização do mercado. Do seu ponto de vista, o Instituto de Normalização de Qualidade tem a norma da farinha e a responsabilidade de criar também as regras para a utilização dos outros produtos. “Há ainda o Comité Nacional para o Código Alimentar (Codex-Angola) que trabalha com o Instituto para encontrar as regras angolanas”, acrescentou.
Enquanto as outras normas não existem, Jacinto Ucuahamba diz ser complexo avaliar a qualidade do pão, “porque teremos que ver também a de todos os produtos que entram no fabrico do pão”. Como tal não se verifica, disse que esperam que o próprio consumidor reclame junto do INADEC ou do Ministério da Indústria.
O interlocutor explicou, ainda, que mesmo existindo uma norma da farinha, é difícil exigir aos industriais o cumprimento dela, porque o país não a está a produzir. “Se tivéssemos a indústria de transformação de trigo a funcionar teríamos exigido que as empresas de moagem produzissem a farinha dentro dos padrões definidos”. No entanto, “como a farinha é importada, não temos a possibilidade de controlar o que entra no país, nem como exigir que apenas seja importada aquela que esteja dentro do nosso padrão”.
Jacinto Ucuahamba acredita que dentro de um curto espaço de tempo, quando for lançada a indústria de transformação de cereais, o Estado vai ter a possibilidade de fazer exigências. Até lá, “vamos fazendo apenas algum controlo para garantir que a matéria-prima não cause danos à saúde pública”, admitiu.
Pão dá energia ao organismo
O pão fornece essencialmente hidratos de carbono (também conhecido por amido ou açúcar) que dão energia ao organismo e ajudam a controlar a fome. Este alimento, segundo a nutricionista Paulina Semedo, pode também fornecer fibras, magnésio, fósforo e vitaminas, principalmente do tipo B1.
Se o pão for de mistura (confeccionado com vários tipos de farinha) ou integral, os hidratos de carbono ajudam a regular os níveis de açúcar no sangue, facilitam a digestão e previnem a prisão de ventre.
A especialista alerta que, no entanto, o consumo exagerado de pão pode desequilibrar a dieta, uma vez que o consumidor deixa de comer outros alimentos. O desequilíbrio pode resultar no aumento de peso, mas não propriamente pelo consumo do pão. “O que faz aumentar as calorias são os ingredientes que vão dentro dele, como doces e compotas, muita manteiga, queijo, chouriço, atum enlatado, frango frito, ovo estrelado ou outros alimentos com gordura”, explicou.
Por outro lado, esclarece, o pão integral não faz emagrecer. “Ajuda a controlar as calorias que ingerimos e dá-nos a sensação de saciedade, porque nos fornece fibras”, mas apenas isso. Rico em fibras, vitaminas e minerais, porque a farinha utilizada não é refinada, este pão tem mais nutrientes do que os outros.
De acordo com a nutricionista, a quantidade ideal de consumo de pão, assim como de qualquer outro alimento, depende de cada pessoa e da idade. Igualmente, acrescenta, deve-se ter em conta o estado fisiológico de cada um: se está doente, saudável, grávida ou aleitante (mulher que esteja a amamentar). “Há ainda outro aspecto, como a actividade que cada um desempenha. É lógico que um pedreiro coma mais do que um escriturário”, referiu.