Poligamia: sim ou não?
A Fundação Agostinho Neto realiza hoje às 9 horas, no auditório da empresa de seguros AAA, na Avenida Lénine, um debate com o tema “poligamia ou adultério?”.
Enquadrado nas celebrações alusivas ao Dia da Mulher Angolana e ao Dia Internacional da Mulher, o encontro, que acontece no âmbito da 1ª edição da mesa redonda Diálogos em Família, realiza-se sob o lema “a nova ordem começa em nossa casa”.
A deputada Irene Neto, membro da direcção da Fundação Agostinho Neto, explicou que escolha do tema se deve ao facto do assunto ser actual, porque existem várias manifestações e práticas concretas na vida dos angolanos, quer na zona urbana como na rural.
A primogénita do primeiro Presidente da República de Angola, António Agostinho Neto, acredita que “existe um debate mesmo a nível da própria Constituição agora em vigor, uma vez que há usos e costumes e os hábitos da modernidade que podem até influenciar o sistema familiar, trazendo até malefícios para a família e as pessoas”.
Uma das mentoras da fundação, a dra. Irene Neto acha pertinente a discussão do tema porque a nova Constituição defende o direito costumeiro: “Há regiões onde a poligamia é um facto, mas nas cidades, onde existem igrejas e se defende a monogamia, existe conflito entre as duas situações. É preciso definir bem o que é a poligamia”, defende a médica.
O debate estará a cargo de palestrantes como o frei João Domingos, da Igreja Católica, os psicólogos Laurindo Vieira e Maria da Encarnação Pimenta, assim como o jurista João Pinto e a socióloga Fátima Viegas.
Foram também convidados a deputada Adélia de Carvalho, o biólogo e tradicionalista Makuta Nkondo, o engenheiro António Henrique da Silva e a inspectora-chefe da Polícia Nacional Laurinda Baptista.
Os oradores vão falar sobre assuntos como “o fundamento da família: como o casal constrói a família”, “no âmbito da Constituição: numa época de enormes liberdades sexuais, como conjugar a liberdade, a ética e a moral?”, “ a influência das TIC na formação das mentalidades” e “uma perspectiva da Polícia Nacional na perspectiva do género”.
Entre os moderadores constam o jurista Pedro Fançony, o reverendo Adilson de Almeida, a deputada e jornalista Paula Simmons e o doutor Filipe Vidal. O embaixador do Mali em Angola, Farouk Camara, fará uma análise sociológica da poligamia, narrando a experiência do seu país. “Infelizmente não temos nenhum médico, mas conseguimos ter o embaixador do Mali, um país onde a poligamia existe. Há várias famílias cujas filhas contraíram matrimónio com alguns cidadãos de outros países onde a poligamia é assumida, mas desconhecem as formas de vivência na terra dos seus parceiros”, realçou Irene Neto, acrescentando que “é bom falarmos sobre isso. É uma reflexão que precisamos ter e vamos conversar entre nós”.
Apologista da introdução de uma alínea na nova Constituição a favor da poligamia, a Nova Democracia, presidida pelo deputado Quintino de Moreira, não terá nenhum representante na discussão desta manhã. Apesar de convidados, como realçou Irene Neto, “os responsáveis da ND não estão no país, mas agradeceram o convite que lhes foi endereçado mesmo não participando”.
Opiniões já existentes
Na primeira edição deste jornal (ver O PAÍS 14 de Novembro de 2008), o frei João Domingos e a socióloga Fátima Viegas também se debruçaram sobre a poligamia, numa altura em que a música “ a outra”, do músico Matias Damásio, estava em voga.
Reitor da Escola João Paulo II, o frei disse que o homem foi feito para uma única mulher, tanto a nível político, intelectual, psicológico e sexual. O prelado contou que “o projecto de Deus, que prevalece há milhares de anos, revela que ele fez uma mulher para um homem e um homem para uma mulher. Não criou duas mulheres para um único homem.
A poligamia é uma tradição que os homens arranjaram para acomodarem as suas conveniências e interesses. Criaram maneiras de conceber a vida conforme lhes convém e justificarem que podem ter mais de uma mulher. Mas, ter duas mulheres é até uma violação dos direitos humanos”, disse o frei há um ano e quatro meses.
No mesmo período, a socióloga Fátima Viegas considerou a poligamia como uma realidade inquestionável: “É preferível sermos sinceros e honestos, do que estarmos a tapar o sol com a peneira quando a maioria das pessoas vivem na poligamia. Quando vou ao cabeleireiro oiço comentários sobre isso com alguma naturalidade, até parece que está na moda. Muitas destas senhoras dizem que aquele que não tem uma amante não é homem. Estamos numa sociedade tão consumista e materialista que acabamos por esquecer a nova geração”, frisou a antiga directora do Instituto Nacional para os Assuntos Religiosos (INAR).
Na mesma ocasião, Fátima Viegas disse que não pode condenar apenas os homens, porque ninguém força o outro. Ela salientou que muitas mulheres tornaram-se segundas ou terceiras mulheres e os homens não lhes colocam cordas no pescoço.
Muitas mulheres, na visão da socióloga, aceitam ter estes parceiros em troca de pagamento dos estudos, uma residência e uma boa conta bancária: “Quantas vezes elas próprias disseram-me: ‘doutora, eu não tenho só este. Tenho A, B e C, mas não gosto de nenhum’. É um problema extremamente sério, está em jogo a família, a nuclear e tradicional”, rematou.
Polígamo vive legalmente com as suas mulheres
Alguns dos convidados avançaram a O PAÍS os seus pontos de vista sobre o assunto. O biólogo, jornalista e tradicionalista Makuta Nkondo disse que “na tradição bantu a poligamia é permitida, mas o adultério é condenável”.
Makuta Nkondo defende que “só é polígamo aquele que vive legalmente com todas as suas esposas durante algum tempo ou ao longo da sua vida”.
Dani Costa “A poligamia não deve ser confundida com bandidagem, abusando as filhas alheias ou engravidar e não assumir”, frisou o jornalista, realçando que o “adultério é abuso de confiança e infidelidade. Se comete com as mulheres casadas e esposas alheias, mas não com uma prostituta ou mulher livre.
A poliandria é quando a mulher tem mais de um marido, mas isso confunde-se com a prostituição”.