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 Post subject: Re: ANTÓNIO OLIVEIRA SALAZAR
PostPosted: Mon Nov 23, 2009 1:13 pm 
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SOBREVIVÊNCIA

Sou muito instado mas adio a decisão, o que provoca acessos de fúria naquele gordo inglês fumador de charutos. Só em 1943, quando vejo que a Alemanha já não pode ganhar a guerra, é que cedo aos Aliados uma base militar nos Açores.

A imprensa deles insulta-me, que eu sou nazi-fascista, que nós fazemos a saudação romana, que a Legião Portuguesa festejou publicamente as vitórias do Eixo, que os legionários são os meus "camisas negras", apesar de verdes serem elas. Os cães ladram mas a caravana passa... Acabo de garantir a sobrevivência do meu regime.

No pós-guerra, na Europa ocidental são muito apreciados os legalismos. Consequência: o número de possessos que faz o jogo da Rússia, não pára ali de aumentar. Inevitável é outra guerra. Aguardo o benefício do tempo enquanto vou encobrindo o que se passa por aqui: em 1945 transformo a PVDE em PIDE - Polícia Internacional e de Defesa do Estado e mando organizar os Tribunais Plenários. Nestes, antes dos julgamentos, já estão ditadas as sentenças; traição à Pátria pode dar até 20 anos de cadeia; os lugares para a assistência são todos ocupados por agentes da PIDE; advogados e testemunhas de defesa, se exorbitam, são calados à força. Depois de cumpridas as penas, os condenados podem levar mais uns anitos de reclusão, higiénicas medidas de segurança.

Nos finais da guerra, apesar dos safanões, os comunistas cá de dentro (eles, sempre eles!) provocam agitação e greves de certa monta, mas aguento-me. Em 1947 outros comunistas sabotam-me aviões na base de Sintra.

Entretanto é levantado o muro de Berlim e começa a guerra, embora fria. O meu regime foi sempre anticomunista. Em 1949 Portugal é admitido como membro da NATO. Valeu a pena aguardar o benefício do tempo...

Só para inglês ver, também em 1949 finjo eleições livres para a Presidência da República. O candidato da Oposição é o Norton de Matos, um general maçom. Alega que nós controlamos os cadernos eleitorais e as mesas de voto e por isso desiste à boca das urnas. É reeleito o meu candidato General Carmona; de sete em sete anos, desde 1928, é o que lhe acontece; mas esta foi a reeleição mais espinhosa.

Coitado do Carmona, vem a falecer em 1951 e eu tenho de convocar novas eleições. O candidato "reviralhista" é o Almirante Quintão Meireles. Recusamos a candidatura de Rui Luís Gomes, o comunista. Ele, e a sua quadrilha, levam até uns safanões a tempo. Naturalmente ganha o meu candidato, o General Craveiro Lopes. Lá fora os jornalistas continuam a ladrar, mas a caravana continua a passar.

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 Post subject: Re: ANTÓNIO OLIVEIRA SALAZAR
PostPosted: Mon Nov 23, 2009 1:14 pm 
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VAZANTE

A caravana passa... Outra vez me levanto e passeio pelo terraço. O barquinho não conseguiu alcançar S. Julião da Barra e a vazante começa a arrastá-lo para o alto mar.

Somos pobres, filhos de pobres. O Estado tem de ser forte e imponente para compensar a pobreza natural do nosso povo. Cuidem eles das suas hortas que do Estado cuido eu. Admirem e orgulhem-se das obras que mandei o Duarte Pacheco, e outros, construir de norte a sul da Nação. Admirem e orgulhem-se do Instituto Superior Técnico, do Estádio Nacional e da auto-estrada que o liga a Lisboa; admirem e orgulhem-se do Hospital Santa Maria em Lisboa, e do Hospital S. João no Porto, e dos Palácios da Justiça em Lisboa e no Porto, e das pontes, e dos viadutos, e das barragens do Cávado-Rabagão, e da Idanha-a-Nova, e do Castelo de Bode.

Para admirar e orgulhar-se da nossa Pátria heróica, do nosso Estado forte, não é preciso ser-se instruído. Instrução, para quê? Basta saber ler e escrever e não é preciso que sejam todos. Se tiverem alguma dificuldade de entendimento, lá está o senhor padre para os aconselhar e orientar. Para as primeiras letras, e só para essas, mando construir uma rede de escolas pela Nação fora, e mais não é preciso. Se fôssemos todos doutores, quem iria amanhar a terra, quem iria amassar o pão, quem iria assentar tijolos? Não permito que a falsa sabedoria perturbe a inocência do nosso povo. Esconjuro a tal universidade popular desse tal Bento Caraça; é ateu, interfere com a lei divina, é comunista disfarçado de matemático, é demitido e preso.

Manda quem pode e obedece quem deve, esta é a ordem natural das coisas. Não mexo na propriedade, ela é intangível. Cobiçar os bens do próximo é tentação assoprada pelos comunistas.

Bem sei que é preciso fomentar a produção industrial. Mas o fomento é planeado por mim e aplicado conforme o Estado exige, não permito que se ponha em perigo o equilíbrio orçamental que tanto me custou a alcançar. Observo que o mundo campestre provoca os sorrisos desdenhosos da economia industrial. Por mim, se tivesse de haver competição, continuaria a preferir a agricultura à indústria. Mas se eles querem enriquecer depressa, não chegam lá pela agricultura. A faina agrícola é, acima de tudo, uma vocação de pobres. E o nosso é um povo de pobres, filhos de pobres. As nossas raízes mergulham fundo no torrão natal.

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 Post subject: Re: ANTÓNIO OLIVEIRA SALAZAR
PostPosted: Mon Nov 23, 2009 1:15 pm 
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Não admito reivindicações salariais e muito menos greves, isso é obra de comunistas. Se a economia industrial está a enriquecer uns poucos e a levar um excesso de pobreza a muitos, só a mim cabe corrigir o excesso, cristão eu sou. Doo terrenos para facilitar a construção de casas com rendas limitadas. Pela província, de norte a sul mando construir as Casas do Povo. E nas grandes cidades mando edificar bairros sociais. No da Encarnação, em Lisboa, são pequenas vivendas por entre árvores, cada qual com a sua horta para plantar couves e semear batatas. Que ao menos se lembrem eles das courelas que trocaram pela cidade, à procura de melhor vida que, afinal, não será assim tão boa...

Outra vez assesto os meus binóculos. O barquinho cada vez está mais ao largo, corre o perigo de ser engolido pelas vagas do mar alto. Quem lhe pode lançar mão?

E fogem, fogem dos campos, vêm para as cidades, vão para o Brasil, vão para a Europa e a maioria dos emigrantes é clandestina. Depois da guerra, além dos Pirinéus tudo parece um mar de rosas. Odeio a Rússia e os comunistas, mas também não gosto dos americanos. Não, não! aqui não quero um Plano Marshall, pequeninos mas orgulhosos, escorados estamos por um passado glorioso. Não consigo é evitar o mar de rosas, não há barragem que o detenha, afoga-nos, poucos são os que reparam nos espinhos. De Setúbal a Braga, pelo litoral, as indústrias surgem como cogumelos depois da chuva. Em Lisboa, e no Porto, começa a haver mais gente a escrevinhar nos escritórios do que operários a produzir. Tudo muda e já não consigo travar a mudança. E os escreventes cada vez lêem mais livros e jornais, e vão a cursos nocturnos, e ouvem telefonia com ondas curtas para apanhar o estrangeiro, e vêem filmes, e fundam cineclubes, e arrogam-se o direito de exigir melhor distribuição dos benefícios acrescidos. Também os operários entram no coro, inquinados já estão uns e outros pelo comunismo.

Para evitar a inflação e os maus costumes, continuo a impor vida frugal a quem trabalha por conta d’outrem. Em consequência, são os novos Bancos e as novas Seguradoras que estão a comer a grande fatia do bolo novo, não é o Estado. Nisso não reparam os pobres diabos quando rosnam contra o Estado...

Mas uma coisa é ouvir o que nos contam, outra é ver com os próprios olhos. Chamo o Manuel e, dentro do Mercedes com os vidros foscos, às onze da noite seguimos lentamente ao longo da Avenida. É fim de semana, é Verão, e as esplanadas estão cheias. Pergunto:

- Manuel, o que estão eles a beber?

- Ó Senhor Presidente, é cervejas, é gasosas, é pirolitos, é laranjadas...

- Mas isso é muito caro, não é?

- Ó Senhor Presidente, é 25, é 15, é 10 tostões.

Pois, pois, já estou a entender... Queixam-se que não têm dinheiro e só fazem extravagâncias...

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 Post subject: Re: ANTÓNIO OLIVEIRA SALAZAR
PostPosted: Mon Nov 23, 2009 1:16 pm 
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Se fossem apenas operários e escreventes a rosnar, com essa gentinha podia eu... O pior é que já começam a surgir brechas na União Nacional e no Estado. Henrique Galvão, que foi dos meus, descambou de vez para o "reviralho". Começou por alinhar com o Quintão Meireles e agora, ao lado do Cunha Leal (aquele do Cerejeira de antigamente), rosna que há compadrio dos grandes grupos financeiros com muitas das autoridades civis do meu regime. A Censura corta mas sei que, no fundo, têm razão; o dinheiro não tem cheiro, por baixo do pano impossível é deter o seu fluxo.

Também oficiais formados na América pela NATO, entre eles o Humberto Delgado (outro que foi sempre dos meus), começam a morder o Santos Costa, o meu sempre fiel Ministro da Guerra. Dizem que o aparelho militar português é arcaico e é urgente renovar as Forças Armadas, também a sociedade portuguesa. E até o Craveiro Lopes, o meu Presidente da República, parece que lhes dá ouvidos... O Craveiro não pode ser candidato à reeleição, e tenho dito! Saudades do velho Carmona...

Até o Marcelo Caetano (que foi o meu Comissário da Mocidade Portuguesa, e o meu Ministro das Colónias, e o meu presidente da Câmara Corporativa e é o meu Ministro da Presidência desde 1955) faz conluio com os seus ex-alunos que já ocupam lugares cimeiros nas grandes empresas. Parecem todos apostados em renovar o regime, mas por dentro. Não me atacam frontalmente, tentam é dissolver-me. Quererão fazer hoje comigo, o que ontem eu fiz com o Rolão Preto? Enganam-se, sou um osso muito mais duro de roer...

Tudo muda e é-me difícil travar a mudança. Eu queria que muitas e muitas famílias portuguesas lavrassem as terras da nossa África, nisso investi. Assim fiz na Cela e em Matala, em Angola. Assim fiz no vale do Limpopo, em Moçambique. Até grandes barragens eu mandei construir, a de Cambambe em Angola e a de Cabora-Bassa em Moçambique. Porém, selvagens ignorantes, que se diziam donos da terra, passaram a hostilizar as famílias portuguesas. Muitas, talvez a maior parte, acabaram por desertar para as cidades. Assim desandam as colónias... A Guiné, hoje, é mais uma colónia da CUF do que uma colónia de Portugal. O mal é estar eu aqui tão longe. Viajar não me apetece, de Lisboa a Santa Comba já me cansa, quanto mais a Bissau, Luanda ou Lourenço Marques... Tivesse eu o dom da ubiquidade e tudo seria diferente.

Tenho sonhado muito com a Christine Garnier, não sei porquê. Ou talvez saiba, é esta minha ânsia de interregno, a minha loira e decidida francesinha, jornalista que em 1951 veio para me entrevistar e acabou por me aquecer a cama e a alma... Para fugirmos à mal-encarada vigilância da Maria, até fomos para Santa Comba passar férias. Também porque a minha governanta, muito sovina, só lhe dava carapaus grelhados, umas vezes com batatas, outras com arroz de grelos...

Estou cansado, saudades tenho do antigamente. Estou preso às ideias do passado, sinto vontade de me ir embora, não me dou com a nova mentalidade, isto é só para safados.

No horizonte não vejo mais o barquinho. Terá sido engolido pelas ondas?

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 Post subject: Re: ANTÓNIO OLIVEIRA SALAZAR
PostPosted: Mon Nov 23, 2009 1:17 pm 
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DELGADO


Volto a sentar-me e a cadeira quase se desmonta. Vou mandar arranjá-la. Não substituí-la, que eu nada desperdiço, tudo aproveito.

Os ingleses, finalmente, parecem apoiar o meu regime, embora aconselhem que o liberalize. Em 1957 mandam a rainha Isabel II a visitar-nos. Ela trata com excessiva deferência o Craveiro Lopes. Bem entendo os ingleses, papas e bolos para enganar os tolos... Mas não, já disse que não, o Craveiro não! Recuso a infinita gama de cinzentos, essa é armadilha do Diabo. Para mim é branco ou preto, o Bem ou o Mal. O meu candidato é o Almirante Américo Tomás, dócil e bronco, não quero viver em sobressaltos.

Tocado pelos americanos, Humberto Delgado passa a ser o candidato da Oposição. É o próprio General Coca Cola, mas até os comunistas acabam por apoiá-lo. É desassombrado, é o mais novo general das Forças Armadas portuguesas, coragem física e irreverência não lhe faltam. Declara que, se for eleito, obviamente me demite. Tem até o desplante de frisar o obviamente. Apesar da PIDE, das cargas da GNR e da PSP, em nome da Liberdade arrasta multidões atrás de si. Já lhe chamam o General Sem Medo. Desde o Porto até Lisboa, desde o Alentejo até ao Minho. E os arruaceiros parecem não ter medo das forças da ordem, respondem à pedrada, subversão.

É sismo, é terramoto, rompeu-se um dique e a Nação pode vir a ficar submersa.

Cerro fileiras para salvar a Pátria. Santos Costa põe a tropa de prevenção e os "craveiristas" acovardam-se, não respingam. Na campanha eleitoral de 1949 um dos meus dissera "daqui não saímos, nem a tiros, nem a votos". Não o digo mas penso o mesmo. Quem controla os cadernos eleitorais e as mesas de voto ainda somos nós e em 1958 quem ganha as eleições para a Presidência da República é o Almirante Américo Tomás, obviamente. Não posso deixar de rir...

No rescaldo, um dignitário da Igreja, D. António Ferreira Gomes, bispo do Porto, atreve-se a contestar a minha autoridade. O Cerejeira desterra-o para Roma, mas já vai tarde, fez grandes estragos nas relações entre a Igreja e o Estado.

Deixo que amorteça a onda de choque e em 1959 demito o Delgado de todos as suas funções militares. Nas vésperas de ser preso corre a asilar-se na Embaixada do Brasil e depois segue para o exílio naquele país.

A Nação está devastada. Não sei se terei forças para reconstruí-la. Ainda faço uma alteração constitucional: a eleição para a Presidência da República não será mais por sufrágio directo, mas por sufrágio orgânico. Casa arrombada, trancas à porta...

Em 1960 um comunista louco desvia um avião da linha Casablanca - Lisboa e espalha panfletos subversivos sobre a capital. Também o Álvaro Cunhal e outros cães raivosos conseguem fugir do Forte de Peniche, tudo me falha.

Não gosto da minha vida. Em vez de governar, gostaria de estar em Santa Comba, entre os campos e as vinhas. Mas não encontro quem possa substituir-me.

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 Post subject: Re: ANTÓNIO OLIVEIRA SALAZAR
PostPosted: Mon Nov 23, 2009 1:18 pm 
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1961: O PIOR ANO DA MINHA VIDA
A 22 de Janeiro, na América Central, o Henrique Galvão assalta o paquete Sta. Maria (Santa Liberdade, berram eles...). É pirataria das antigas, mas as outras Nações assim não o entendem. O Brasil dá asilo político aos piratas.

A 4 de Fevereiro um bando de selvagens assalta as prisões de Luanda, querem libertar os presos políticos. Espicaçados, a reacção dos portugueses é heróica: de muceque em muceque, partem à caça dos terroristas.

11 de Março... O General Botelho Moniz é um militar "craveirista", eu bem sabia disso. Mas quis neutralizá-los, convidei-o para meu Ministro da Guerra e muito me custou pôr de lado o Santos Costa. Enganei-me, isto já não funciona como dantes. A 11 de Março o Américo Tomás telefona-me a avisar que o Botelho Moniz e outros generais têm um golpe armado para me apear. Neste preciso momento os golpistas estão a assistir a um jogo de futebol entre as selecções militares de Portugal e Marrocos. Rapidamente vou de quartel em quartel, altero os comandos, esvazio o golpe. Depois do jogo, o Botelho Moniz ainda vem ao meu gabinete tentar uma solução pacífica, que eu trate de acabar com a Censura e outras parvoíces... Ele a falar e eu a lembrar-me de um outro Botelho Moniz fundador da Legião Portuguesa e comandante dos nossos Viriatos na guerra de Espanha. Este aqui degenerou, não saiu aos seus... Corto rente:

- Senhor General, está demitido, queira retirar-se!

Em Angola dão-me uma facada pelas costas. E agora, na minha própria casa, outra facada me queriam dar?

A 13 de Março vou à Emissora Nacional e proclamo, espicaço:

- Para Angola e em força!

Mobilização, flores, fanfarras, a Pátria não se discute!

Mas a 15 de Março a quadrilha do Holden Roberto começa a chacina no norte de Angola. Ele, que nem português sabe falar, é traidor de segunda financiado pelos americanos.

A PIDE avisa-me que outros, dos que estudaram na Metrópole, como o médico Agostinho Neto e o engenheiro agrónomo Amílcar Cabral, também andam lá por fora a organizar movimentos terroristas de outro cariz. Fiz mal em ter aberto em Lisboa a Casa dos Estudantes do Império. Apesar de assimilados, e até licenciados, portugueses de segunda, de segunda serão sempre.

A 21 de Abril há uma resolução da ONU a condenar a política africana de Portugal. Ninguém entende a nossa forma de estar no mundo, à qual um brasileiro chamou, e muito bem, de luso-tropicalismo. Não percebem que a nossa Nação é pluricontinental e plurirracial, é Una, vai do Minho a Timor e a Pátria não se discute.

A 19 de Dezembro tropas indianas invadem Goa, Damão e Diu. Eu tinha ordenado que resistíssemos até ao último homem. O nosso martírio (e eu só estava à espera dele...) levaria ao ridículo internacional o incensado pacifismo de Nehru. Mas Vassalo e Silva, o comandante da nossa tropa, acovardou-se, rendeu-se, traiu-me. Fico muito abalado com a traição.

Na noite de 31 de Dezembro para 1 de Janeiro há uma tentativa de sublevação no quartel de Beja, e nela está envolvido o próprio Humberto Delgado. A PIDE está a par das movimentações. Abafa a revolta mas o susto é grande.

Este foi o pior ano da minha vida.

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 Post subject: Re: ANTÓNIO OLIVEIRA SALAZAR
PostPosted: Mon Nov 23, 2009 1:19 pm 
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ORGULHOSAMENTE SÓ

Torno a levantar-me. Não vejo o barquinho, não sei o que é feito dele.

Ingleses, franceses e belgas abandonaram a África e agora exigem que façamos como eles fizeram? Estão enganados, somos diferentes, não viramos costas à Pátria que dilatámos, soprados somos pelos ventos da História. Não querem ouvir-me e fico só, orgulhosamente só.

Porventura em Portugal estarei mais só. Mas não me entrego, já disse que sou osso duro de roer. Hei-de vedar as brechas da União Nacional, ela tornará a ser o que foi no início, aglutinação de todas as direitas, a Direita, a única. Faço como sempre fiz, alivio o secundário, atarraxo o principal. Em 1958 dei aumento aos funcionários públicos mas, ao mesmo tempo, promovi a caça aos comunistas, o escultor Dias Coelho foi abatido na rua como um cão raivoso e a PIDE destroçou quase que por completo o aparelho clandestino dos lesa-Pátria. Em 1959 consenti que Portugal aderisse à EFTA, lancei o Plano de Fomento, abri linhas de crédito para as indústrias mas, ao mesmo tempo, dei caça ao Delgado e aos delgadistas.

No meu tempo era a Direita que fascinava os estudantes universitários. Hoje parece que é a Esquerda, consequências da famigerada instrução que alastrou sem rei nem roque... Para esse perigo alertei os doutores que me cercam. Não me quiseram ouvir e aí está o resultado: em 1962 rebenta a crise académica de Lisboa. A um grupo de estudantes católicos chego mesmo a dizer:

- Não estraguem as vossas vidas, não se metam em políticas, façam como eu, a minha política é o trabalho!

Ouço que abafam risos. Só há um remédio, safanão a tempo, estudantes para o calabouço!

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 Post subject: Re: ANTÓNIO OLIVEIRA SALAZAR
PostPosted: Mon Nov 23, 2009 1:20 pm 
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Mais preocupado me deixa o Ultramar. Em 1963 os terroristas do Amílcar Cabral, traidor de segunda financiado pelos russos, abrem uma segunda frente na Guiné. Espicaço, vamos também em força para a Guiné! Para aliviar a pressão em Angola apoio a secessão catanguesa do ex-Congo Belga e o comunista Lumumba é justiçado. Mas em 1964 os terroristas do Eduardo Mondlane, outro traidor de segunda também financiado pelos russos, abrem uma terceira frente em Moçambique. Espicaço, vamos também em força para Moçambique! A Grã-Bretanha, os Estados Unidos, a Rússia, a ONU, exigem referendos para a autodeterminação das nossas Províncias Ultramarinas. Estão iludidos, não vou à fala, não converso com terroristas. Orgulhosamente sós, a Pátria não se discute!

É-me já difícil manter o equilíbrio orçamental: três guerras no Ultramar e o consequente sorvedouro financeiro, também a expansão económica da Metrópole que já não consigo domar... Paliativos? As remessas dos emigrantes, o turismo (com a consequente infecção da nossa moral e costumes), também o investimento estrangeiro. Assim começa a ser ofuscada a nossa forma de estar no mundo... É preocupante, mas pior que tudo são as traições. Em 1964 o Papa visita a Índia e, no ano seguinte, visita as Nações Unidas que tanto me atanazam. Não lhe perdoo, nem sequer quando vem a Fátima a 13 de Maio de 1967.

As traições, as traições... Em 1965 há nova crise académica e Marcelo Caetano sai em defesa dos estudantes que levaram o merecido safanão. Logo ele, o meu ex-Ministro da Presidência... Tenho sonhado muito com o Rolão Preto, pesadelos.

Não cedo, não arredo! Para aliviar a pressão em Moçambique, juntamente com a África do Sul apoio a independência da Rodésia de Ian Smith. E ainda em 65 mando assaltar e encerrar a Sociedade (dita Portuguesa) de Escritores, que premiou o romance de um terrorista angolano! E em 67 mando assaltar e fechar a Cooperativa Pragma (dita de acção cultural), aí os comunistas até fingiam de católicos. Para mais me perturbar, sei que ali também arengava o filho de um dos meus fieis.

Ainda em 1967 bandidos comunistas assaltam a dependência do Banco de Portugal na Figueira da Foz e fogem com o dinheiro, que não é pouco. Mas o que é que andam a fazer a PIDE e a GNR e a PSP? Até essas forças já me falham?

Bandidos mais perigosos são os estudantes, veja-se o que fizeram com o General De Gaulle em Maio passado. Esta subversão moderna tem de ter um ponto final! Começo por deportar o Mário Soares para S. Tomé. Só porque era o advogado da família Delgado, queria meter o bedelho aonde não era chamado...

O Delgado, ai o Delgado... Uma das raras alegrias que eu tive nestes tempos conturbados, ocorreu em 1965. Em Argel conspiravam comunistas, delgadistas e outros "reviralhistas", queriam até aliciar a ingenuidade lusitana através das ondas curtas. Rosa Casaco, o meu fiel inspector da PIDE, de Argel conseguiu atrair o Delgado até perto de Olivença, emboscada. Estou a ver o general a chegar à fronteira a meio da noite, a morder o isco, a engasgar-se, a levar um tiro. E a apagar-se, obviamente. Dá-me vontade de rir e largo o corpo na cadeira.

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 Post subject: Re: ANTÓNIO OLIVEIRA SALAZAR
PostPosted: Mon Nov 23, 2009 1:21 pm 
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REQUIEM


A 3 de Agosto de 1968 a cadeira prega-lhe realmente uma partida: queda, a cabeça a bater no chão, hematoma cerebral, bloco operatório, diminuição das faculdades mentais. Depois de muito hesitar, Américo Tomás acaba por nomear Marcelo Caetano para a Presidência do Conselho de Ministros. Alguns destes, junto de Salazar, fingem que é ele ainda o Presidente do Conselho; ou ele finge acreditar na encenação e, a fingir, lá vai dando despacho aos assuntos correntes. Morre a 27 de Julho de 1970. 81 anos de idade, 42 de poder ininterrupto.

As suas pegadas marcaram Portugal. O tempo passa e elas ficam, dinossauros passearam por aqui.

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 Post subject: Re: ANTONIO OLIVEIRA SALAZAR
PostPosted: Wed Jul 28, 2010 10:02 am 
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Salazar foi acompanhado por 43 médicos

O ditador esteve para ser operado por um neurocirurgião ligado ao PCP. Alguns dos clínicos que o assistiram mais de perto pertenciam à Maçonaria. Na véspera de morrer, Salazar recebeu uma segunda extrema-unção.
José Pedro Castanheira (www.expresso.pt)

Vasconcelos Marques, chefe da equipa de neurocirurgia e o prof. norte-americano Houston Merritt
«A Capital» (Arquivo Gesco)

Nos últimos dois anos de vida - desde a intervenção cirúrgica ao cérebro, até à morte - Salazar foi acompanhado por uma vastíssima equipa de médicos, disponibilizados e pagos pelo Hospital da Cruz Vermelha. Segundo uma listagem feita pelo Expresso, foram 43 os clínicos que o trataram, das mais variadas especialidades (desde neurologia e neurocirurgia, até anestesiologia, passando por urologia e nefrologia).

A listagem baseia-se no próprio processo clínico de Salazar, existente no Hospital da Cruz Vermelha, completado por dois dos principais trabalhos sobre o fundador do Estado Novo: a biografia "Salazar", de Franco Nogueira, e "Salazar. O Fim e a Morte", do seu médico Eduardo Coelho, escrito em parceria com o filho António Macieira Coelho.

Operação acompanhada ao vivo por 13 clínicos

Só no bloco operatório da Casa de Saúde da Cruz Vermelha, a assistir à cirurgia na madrugada de 7 de Setembro de 1968, estiveram 13 médicos.

A operação esteve a cargo dos cirurgiões Vasconcelos Marques, Álvaro de Ataíde e Lucas dos Santos, enquanto a anestesia foi confiada a Maria Cristina da Câmara. De acordo com o biógrafo Franco Nogueira, que à época era o ministro dos Negócios Estrangeiros, à cirurgia assistiram ainda mais nove clínicos: Eduardo Coelho, Almeida Lima, Bissaia Barreto, Lopes da Costa, João de Castro, Ana Maria Monteiro, Silva Santos, João Bettencourt e Jorge Manaças.

O chefe da equipa de cirurgia foi António Vasconcelos Marques, director do serviço de neurocirurgia do Hospital dos Capuchos. Segundo a versão de Eduardo Coelho, o médico pessoal de Salazar, Vasconcelos Marques foi a quarta escolha.

Primeira escolha foi um médico pró-PCP

Os primeiros nomes a serem considerados foram os de Eduardo Moradas Ferreira, Gama Imaginário e Almeida Lima.

Apesar de ligado à Oposição, suspeito mesmo de simpatias pelo PCP, Moradas Ferreira foi a primeira hipótese a ser equacionada. No entanto, "estava fora do Continente, na Madeira"; atendendo ao carácter de extrema urgência da operação, e não havendo forma de ir buscar Moradas Ferreira a tempo, Eduardo Coelho foi obrigado a mudar de ideias.

Alternativas consideradas foram, então, as de Gama Imaginário e Almeida Lima; o primeiro, porém, "estava doente", enquanto o segundo "já não operava".

Médicos ligados à Maçonaria

Impôs-se assim o nome de António Vasconcelos Marques. A primeira incisão, porém, foi efectuada pelo seu colega Álvaro Ataíde, também ele desafecto ao regime salazarista e já pertencente à Maçonaria - de que viria, mais tarde, a ser dos principais responsáveis.

Também à Maçonaria pertencia Bissaia Barreto, velho amigo de Salazar e seu médico pessoal, antes de ser substituído por Eduardo Coelho. O mesmo sucedia com um dos analistas, Fernando Teixeira, bem como o nefrologista Jacinto Simões.

Este foi, aliás, o clínico que mais assiduamente acompanhou o ditador na fase terminal. Sobretudo a partir de 15 de Julho de 1980, quando adoeceu gravemente.

Pároco da Estrela dá segunda extrema-unção

Submetido a hemodiálise, acompanhado por Jacinto Simões, logo surgiram complicações em cadeia: perturbações cardiovasculares, carência da função renal, um edema pulmonar e focos de pneumonia.

No domingo, 26 de Julho, o ditador entrou em agonia, a pondo de ter sido chamado o padre Gomes Duarte, pároco da basílica da Estrela, que deu a extrema-unção a Salazar.

Foi a segunda que este sacramento lhe foi administrado: a primeira fora em 16 de Setembro de 1968, pelo cardeal Gonçalves Cerejeira, quando Salazar entrou em coma, na sequência do violento AVC que se seguiu à cirurgia.

"Um electrocardiograma quilométrico"

Segundo o comunicado oficial emitido pelo Governo, Salazar faleceu às 9.15 horas de 27 de Julho de 1970.

A morte foi confirmada por um electrocardiograma, feito e assinado por três cardiologistas: o médico pessoal, Eduardo Coelho, o filho, Eduardo Macieira Coelho, e J. Silva Maltez.

"Costumo dizer que foi um electrocardiograma quilométrico", recorda Macieira Coelho; "como o dr. Salazar estava clinicamente morto, o resultado só podia ser uma linha contínua".

O cirurgião Vasconcelos Marques. Nas suas memórias, Eduardo Coelho (o médico de Salazar) diz que foi uma quarta escolha
«A Capital» (Arquivo Gesco)

1,6 milhões de escudos com os médicos

Quase um terço das despesas efectuadas pelo Hospital da Cruz Vermelha relacionam-se com os honorários apresentadas pelos médicos.

Segundo a documentação existente no processo clínico de Salazar, desde o internamento à morte, as despesas com os médicos foram de 1.611.860 escudos.

Desta verba não fazem parte os honorários do chefe da equipa de cirurgia, Vasconcelos Marques, que, compreensivelmente, foi quem apresentou uma "fatura" mais elevada.

Vasconcelos Marques: 550 mil ou 3 milhões?

No seu livro de memórias, Eduardo Coelho, que viria a incompatibilizar-se com Vasconcelos Marques - a ponto de o caso ser julgado em tribunal -, diz que este "apresentou uma conta de honorários de três milhões de escudos". No processo hospitalar, porém, estão registados apenas 550 mil escudos, pagos pelo Ministério da Economia.

Eduardo Coelho, o médico pessoal de Salazar, escusou-se a apresentar quaisquer honorários.

A vinda de um especialista norte-americano

Ignora-se ainda o montante das despesas efectuadas com a vinda do médico norte-americano Houston Merritt, professor de neurologia e vice-presidente da Universidade de Columbia, de Nova Iorque.

Por sugestão da administração norte-americana, e a suas expensas, Merritt veio de propósito a Lisboa observar Salazar após o AVC. Pouco mais fez que confirmar o diagnóstico feito pelos colegas portugueses e elogiar o seu trabalho.

"Os cuidados médicos que o Presidente tem recebido e o tratamento que foi instituído para a hemorragia intracerebral foram excelentes e não poderiam ter sido ultrapassados em parte alguma do mundo", escreveu Merritt num relatório de 18 de Setembro de 1968.

Lista dos 43 médicos chamados a tratar de Salazar (por especialidade)

Neurocirurgia - António Vasconcelos Marques, Álvaro Ataíde, Almeida Lima, Eduardo Lucas dos Santos, Fernando Silva Santos, Jorge Manaças, João Barros de Bettencourt

Neurologia - João Lobo Antunes, Ermelinda Santos Silva e Miranda Rodrigues

Cardiologia - J. Silva Maltez , J. Correia Marques, Eduardo Macieira Coelho, Lima Faleiro, Eugénia Cohen da Cunha Telles e António Gomes Conceição

Anestesiologia - Maria Cristina da Câmara, João de Castro, Avelino Fortes Espinheira, Ana Maria Monteiro e M. Silva Araújo

Urologia - Cândido da Silva, Alberto Matos Ferreira, Sousa Sampaio, J. Pires Pereira

Cirurgia geral - J. Viana Barreto

Gastrenterologia - J. Pinto Correia

Otorrinolaringologia - Carlos Larroudé

Fisiatria - Henrique Martins da Cunha

Medicina física e de reabilitação - António Eduardo Alves Carpinteiro

Análises clínicas - Manuel H. Nazaré, Fernando Teixeira

Nefrologia - Jacinto Simões

Reumatologia - José de Mendonça da Cruz

Pneumologia - Tomé Vilar

Estomatologia - Ferreira da Costa, Manuel Figueiredo

Oftalmologista - João Saraiva

A estes nomes, haverá que acrescentar o médico de Salazar, Eduardo Coelho, Bissaia Barreto (que desempenhara anteriormente idênticas funções), Luís Lopes da Costa (diretor clínico do Hospital da Cruz Vermelha), Neto Rebelo e o professor americano Houston Merritt.

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